O Brasil consolida sua posição em toda a cadeia produtiva, da semente ao doce, apostando em diferenciais que vão muito além do sabor para conquistar o mercado internacional: a preservação ambiental. Com raízes profundas na história ecológica do país, o cultivo nacional ganha destaque em vitrines globais, embora o futuro da iguaria enfrente ameaças severas provocadas pelas alterações no clima.
Tradição e sustentabilidade na cabruca
De acordo com André Luiz Carvalho Scampini, secretário-executivo da Associação dos Cacauicultores do Espírito Santo (ACAU), um dos métodos mais tradicionais de cultivo é a cabruca, que consiste em plantar o fruto diretamente sob a cobertura da mata nativa.
“O cacau é uma forma de preservar o ambiente. Por quê? Porque um sistema mais tradicional de plantio do cacau é a cabruca. É uma palavra indígena. Não tem tradução para outros idiomas e significa roça, cultivo, lavoura. A cabruca, para o cacau, é a gente plantar o cacau na mata nativa, dentro da própria mata.”
Scampini ressalta que a planta é originária da Amazônia — sendo prima do cupuaçu — e evoluiu para se desenvolver naturalmente à sombra de árvores de grande porte e em ambientes ricos em água. Esse modelo de manejo permitiu que produtores do sul da Bahia e do Espírito Santo mantivessem áreas de Mata Atlântica em pé muito antes do surgimento de leis ambientais.
“Então ele foi plantado dentro da Mata Atlântica. Se hoje na Bahia e no Espírito Santo existe Mata Atlântica, agradeça ao cacau, porque o produtor escolheu. Ele decidiu manter a mata para plantar cacau”, afirma Scampini.
Valorização da origem e expansão internacional
O estado capixaba também se destaca pela valorização territorial. A região de Linhares conquistou a primeira indicação geográfica brasileira para amêndoas de cacau, evidenciando características únicas de microclima, solo e água.
“Nós temos a indicação geográfica, o Cacau Linhares. A indicação geográfica é a mesma coisa que champanhe, bordô, Borgonha ou Serra da Canastra. A nossa é a pioneira.”
“Existe o terroir, que é o microclima, a qualidade da terra e a qualidade da água, que tornam a amêndoa de cacau produzida em Linhares diferente. Então ela é mais aromática, mais frutada, tem um sabor mais suave e uma maior concentração de manteiga de cacau”, detalha o secretário-executivo.
Para expandir horizontes, produtores dos estados do Pará, da Bahia e do Espírito Santo marcaram presença no Salão do Chocolate e da Patisserie, em Paris. O objetivo é apresentar o padrão nacional aos mercados europeu e asiático.
“Então, assim, nós temos qualidade. E, se temos qualidade, vamos apresentar essa qualidade ao mundo. Vamos levar essa qualidade para a Europa também. Estamos de olho na Ásia, que é um mercado que está crescendo muito. Por isso estamos presentes aqui no Salão do Chocolate, para nos apresentar”, declara Scampini.
Durante o evento em Paris, expositores reforçaram a importância da evolução contínua da lavoura. “Nesses eventos, vamos evoluindo a nossa produção de cacau, vai melhorando e conseguimos comercializar de forma mais rápida a nossa amêndoa e nossos subprodutos”, afirma Ivaldo de Santana, expositor paraense.
Busca por remuneração justa
Apesar do avanço comercial, lideranças do setor cobram uma distribuição mais equitativa dos ganhos ao longo da cadeia produtiva mundial.
Em entrevista à RFI, Marco Lessa, coordenador da missão brasileira em Paris, enfatizou a urgência de valorizar quem realmente cultiva a terra. “A luta maior é para que haja um preço justo, seja para o cacau brasileiro como o africano e do mundo inteiro. O produtor tem que ter uma participação maior que a matéria-prima, o protagonista é o produtor de cacau”, diz.
Segundo ele, “não faz sentido que de uma barra de chocolate, só 7% do preço dela é do produtor”. “É importante que os consumidores saibam, ao comer, e ao comprar, o impacto disso na vida das pessoas”, completa.
Crise climática e o risco de luxo
Apesar do momento de expansão, o futuro da iguaria enfrenta sérias ameaças. Elis Joinville, representante da Cacau Brasil, alerta que o aquecimento global e as mudanças no clima já afetam as lavouras e podem transformar o doce novamente em um artigo inacessível.
“O chocolate, historicamente, era um produto de luxo. Até os anos 40 e 50. Com o passar do tempo, outras maneiras de fazer chocolate foram surgindo para popularizar o produto.”
Contudo, esse cenário corre o risco de retroceder. “Com a mudança climática e o aumento das temperaturas, as culturas de cacau podem ser realmente afetadas. Na verdade, já estão sendo afetadas. E o preço já está subindo”, avisa Joinville, acrescentando que variedades cultivadas há mais de duzentos anos correm o risco de extinção. “Isso pode fazer com que, um dia, o chocolate volte a ser um produto de luxo”, conclui.
A qualidade e a sustentabilidade do produto brasileiro, contudo, já conquistam paladares exigentes no exterior. Visitantes do salão em Paris destacaram o equilíbrio e o cuidado por trás das receitas nacionais. “É excelente. Gostei dos diferentes chocolates, especialmente o de 70%. É suave, encorpado, com notas que remetem à floresta. Não há amargor. É extremamente suave na boca. Dá para sentir todo o amor dedicado a essa produção, desde o início até a criação do chocolate”, relata a visitante Nathalie, que apontou a agrofloresta como o caminho ideal para o futuro do setor.





